quinta-feira, 14 de julho de 2011

A QUESTÃO DOS LIMITES - ROBERTO DAMATTA



A palavra mais lida nos jornais é “corrupção”. Explodem escândalos vergonhosos em todos os níveis do governo. Todos falam de roubalheiras que vêm de “cima” para “baixo”, dos “governantes” que deveriam, pela nossa velha cartilha, dar o exemplo para a sociedade. Eles não são apenas a herança do populismo lulista — um populismo de extraordinários resultados coletivos e privados, mas revelações de um sistema administrativo construído sobre uma contradição. Pois se o republicanismo que vem lá da Revolução Francesa se funda na igualdade perante a lei, o estilo brasileiro de exercer o poder é aristocrático e hierárquico.



Quem está mais longe do poder é sujeito da lei e quem o controla multiplica seus bens assaltando os recursos da sociedade impunemente e com a proteção (ou “blindagem”) governamental. É o descaso para com a igualdade republicana que está no fundo de todos esses escândalos claros ou velados, e são eles que colocam em xeque o governo e, muito mais que isso, a nossa capacidade de honrar a democracia.



Sobretudo agora que vamos bater novamente de frente com o “mensalão”, essa vergonha de um partido que prometia transformar todos os costumes políticos nacionais, mas que demonstrou que o nosso problema é muito mais de atitude gerencial e de cuidado para com a coisa pública do que de mera figuração ideologia.



Nosso moinho satânico não é bem o capitalismo com suas mais-valias e seus monopólios, mas um Estado que troca o senso de limites pelas relações de amizade que se (con)fundem com os elos partidários. O tal governo de coalizão que sempre foi a marca da política nacional é hoje a carteira privilegiada de um clube onde se chega pelo individualismo e pela igualdade das disputas eleitorais, e tira vantagem através da desigualdade que caracteriza o exercício de uma administração centralizada num “estado” que só sabe pensar em si mesmo. A nossa interpretação do liberalismo foi no sentido de transformar o seu individualismo em privilégio pessoal porque nele só enxergamos o lado dos direitos e das vantagens, esquecendo sua dimensão de dever, de honra e de responsabilidade. Dos limites e fronteiras que chegam mais pelo bom-senso e pela boa-fé do que pela policia, pelos tribunais e pelas leis.



O que falta nessa mixórdia não é discutir leis e inventar mais instituições e códigos de conduta, mas de discussão dessas inocentes pontes “naturais” e “humanas” entre gerentes públicos (prefeitos, governadores, ministros, reitores, diretores, presidentes, etc...) e administradores privados — todos enriquecendo brutalmente que com o nosso dinheiro.



E o ponto central para realizar tal discussão é ter uma consciência cada vez mais clara de que quem produz os recursos e a riqueza é a sociedade. É o conjunto de pessoas que forma o tal “povo” que não é nem pobre ou rico, mas é comum no sentido de ser parte de um todo com interesses e valores coincidentes. Pertence a esse povo o dinheiro nacional, bem como a conduta dos seus gerentes, eleitos por tempo limitado. Eles não são os seus donos, mas os seus gerentes. Eles não têm o direito de fraudar esse povo em nome de sua libertação ou de sua miséria, mas a obrigação de honrá-lo com o gerenciamento eficiente e honesto dos seus recursos.



Só a consciência radical da igualdade perante a lei e da responsabilidade publica dela decorrente pode nos libertar desse embrulho ideológico mistificador no qual os governantes se apresentam como protetores, mães, pais e tios, primos e, no fundo, proxenetas do “povo”. Esse povo propositalmente confundido de modo imoral e populista com os “pobres” que precisam de um Deus no céu e de nossa ação a seu favor na terra. É entre ele e os projetos governamentais que brotam as mestiçagens do público com o privado — essas misturas que multiplicam bens num grau que escandalizaria um imperador romano.



Precisamos urgentemente de uma consciência de limites — essa irmã do bom-senso. O bom-senso sobre o qual Tom Paine, em pleno século XVIII, exortando a separação entre pessoa e papel num mundo novo, marcado pelo individualismo e pelo ideal de liberdade e igualdade, discutia. Tal conta de chegar entre pessoa (com seus interesses particulares) e papel público (que demanda isenção, equilíbrio e altruísmo). Sabemos como isso é complexo num pais marcado pela desigualdade da escravidão, como bem viu Joaquim Nabuco. Mas, sem essa consciência do que é público e do que é particular, não vamos alcançar o mínimo da responsabilidade pública demandada numa democracia representativa, pois ela depende dessa discussão daquilo que é suficiente para cada um de nós num sistema onde, aparentemente, o céu pode ser o limite — como exemplificam os nossos representantes (???) na esfera pública, sobretudo os que nos governam.



Termino com uma parábola.



Conta-se que, numa reunião na mansão de um multimilionário americano, o escritor Kurt Vonnegut Jr. (autor, entre outros, do incrível “Matadouro 5”) perguntou ao seu colega Joseph Heller (autor do não menos perturbador e brilhante “Ardil 22”): "Joe, você não fica chateado sabendo que esse cara ganha mais num dia do que você jamais ganhou com a venda de ‘Ardil 22’ no mundo todo?" Ao que Heller respondeu: "Não, porque eu tenho alguma coisa que esse cara não tem!" Vonnegut olhou firme para ele e disse: "E o que você acha que pode ter que esse sujeito não tenha?" Resposta do Heller: "Eu conheço o significado da palavra suficiente!".



ROBERTO DAMATTA é antropólogo.



PUBLICADO NO ESTADÃO EM 13/07/2011 - CADERNO 2 - PÁGINA D-10

quarta-feira, 13 de julho de 2011

DEPOIMENTO DE LUIZ ANTÔNIO PAGOT NO SENADO: "PARTURIENT MONTES, NASCETUR RIDICULUS MUS" - JULIO FERREIRA



Qual terá sido a sórdida estratégia usada para manter "sob controle" o tal Luiz Antônio Pagot, ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura dos Transportes (Dnit), durante o seu depoimento à Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado? A verdade é que ao garantir que o PR não utilizou a estrutura do órgão para montar um esquema de arrecadação financeira para campanha eleitoral, "Pagozinho" complicou ainda mais a situação, na medida em que deixou em aberto o destino do dinheiro "amealhado" no sórdido programa de propinas e superfaturamentos montados em torno das obras do PAC, gerando um escândalo tão "cabeludo", que acabou por ocasionar a desonrosa demissão do ex-titular do Ministério dos Transportes. Afinal, se todo o "festival de maracutaias" não teve como objetivo estabelecer uma reserva financeira que garantisse as milionárias campanhas eleitorais do PR, qual teria sido o destino da "montanha de dinheiro" resultante das "tenebrosas transações"? Será possível que tudo não passasse de pura e simples roubalheira, destinada a promover o "alibabesco" enriquecimento de alguns membros da elite dirigente do PR, assim como de outros tantos parentes e aderentes. Assim fica difícil! Alguém precisa esclarecer onde foi parar toda aquela "bufunfa"! É inacreditável, por exemplo, que a Receita Federal, tão eficiente no rastreamento e controle dos "caraminguados" ganhos pelos brasileiros, em troca de trabalho, confundindo salário com renda, não seja capaz de perceber, e "esmiuçar, tintim por tintim, movimentações financeiras tão estranhamente superlativas.

Júlio Ferreira
Recife - PE
E-mail: julioferreira.net@gmail.com
Blog: http://www.ex-vermelho.blogspot.com/

sexta-feira, 8 de julho de 2011

DEVE SER DADO UM BASTA! - TURÍBIO LIBERATO

DEVE SER DADO UM BASTA!
Ninguém merece! O que foi uma prática nefasta e recorrente no governo Lula da Silva, para nossa consternação e indignação, agora volta a dar as caras no governo da presidente Dilma Rousseff. Ninguém mais se surpreende ao ouvir falar em propina, desvios, em falcatruas, corrupção e outras tantas picaretagem e canalhices envolvendo políticos de todas as plumagens e caracteres. Agora veio à tona mais um "suposto" esquema de cobrança de propina, desta vez no Ministério dos Transportes, que culminou, ainda no fim de semana, na demissão da cúpula da pasta. A presidente Dilma não deve cometer os mesmos erros de seu antecessor, de ficar passando a mão na cabeça dos companheiros, jogar a responsabilidade para segundos e terceiros é balela, é querer zombar da inteligência das pessoas, quem comanda é responsável, neste caso, o ministro dos Transportes ou foi convincente, ou foi omisso, ou incompetente para perceber o que vinha acontecendo dentro de sua pasta e deveria ser o primeiro a ter sido afastado pela presidente. E ainda querem o sigilo dos preços máximos de obras que balizam a prestação de propostas nas concorrências públicas das obras da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, dizendo que esse sigilo criaria mais incerteza para as empresas concorrentes, dificultando eventuais conflitos entre elas? A prova de que isso não é verdade está aí, ao vivo e em cores, para quem quiser ver. Como de costume, o governo só fecha a porta arrombada quando o assalto aos cofres públicos já foi praticado, sempre fica sabendo pela imprensa, e desta vez não foi diferente. Reportagem publicada pela revista Veja revelou como funciona a cobrança de propina de 4% das empreiteiras e de 5% das empresas de consultoria que elaboram os projetos de obras em rodovias e ferrovias. Para nossa surpresa, o governo Dilma além de não ter demitido logo, ainda divulgou nota de apoio a Alfredo Nascimento e chegou a encarregá-lo de liderar as investigações na pasta. Não é para da risada?! A quem essa gente pensa que ainda engana? Botar a raposa para tomar conta do galinheiro e achar que somos 190 milhões de idiotas é o mais do mesmo...


Turíbio Liberatto www.turibioliberatto.nafoto.net - São Caetano do Sul

PUBLICADO ESTADAO -07/07/2011
____________--

quinta-feira, 7 de julho de 2011

TOMBA MAIS UM HERÓI - HUMBERTO DE LUNA FREIRE FILHO

Depois da divulgação de que o filhinho do ministro dos Transportes aumentou o capital de sua empresa 867 vezes, de R$ 60 mil para R$ 52 milhões em dois anos, transformando Palocci em aprendiz de feiticeiro, não restou alternativa ao papai ministro a não ser pedir demissão. Infelizmente, é mais um herói da base alugada que tomba, na grande batalha para esvaziar os cofres públicos. Mas, em compensação, durante a passagem do cargo ao sucessor, receberá muito mais palmas do que recebeu o pobre Palocci, afinal, a ovação é proporcional ao dinheiro roubado. Em seguida o novo herói nacional se esconderá no Poder Legislativo, protegido por uma excrescência chamada foro privilegiado, e blindado pelo que existe de mais podre na vida pública do País, até que a sociedade esqueça e 20 anos depois, um possível processo morra nas gavetas do Supremo Tribunal Federal.
Humberto de Luna Freire Filho hlffilho@gmail.com - São Paulo

DEMITIR ALFREDO NASCIMENTO E MANTER A PASTA SOB O COMANDO DO PR, É TROCAR SEIS POR MEIA DÚZIA - JÚLIO FERREIRA

O cretinismo da petralhada é de tal monta que, após a presidente Dilma Rousseff finalmente ter tido a coragem, ou, quem sabe, ter recebido a permissão de Lulla, para demitir Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes, abre-se imediata e descaradamente discussões para saber qual será o companheiro de partido de Alfredinho que vai assumir o seu lugar, e conduzir as investigações sobre as "presepadas enriquecedoras" que possam ter sido cometidas nos quase dez anos de gestão do finalmente agora desmascarado ex-ministro. Isso é uma vergonha! Afinal de conta o Ministério dos Transportes é propriedade do PR? Se é, foi comprado por quando, ou adquirido em troca de quê? Manter o Ministério dos Transportes, dono do terceiro maior orçamento da União, nas mãos do mesmo partido que esteve no comando da pasta desde o primeiro Governo de Lulla, é uma total e absoluta irresponsabilidade, além de ser uma clara falta de compromisso para com a coisa pública. A situação é tão absurda quanto a de um sujeito manda dedetizar sua casa, mas com a condição de que imediatamente após o extermínio dos ratos e baratas que contaminam o local, seja providenciado um novo "plantel" de roedores e insetos para ocupar o mesmo espaço, evidenciando que sua intenção não é a da purificar o ambiente, mas de "fazer um rodízio de agentes contaminadores". Em suma, esse é um episódio em que fica claro que o interesse é o de simplesmente mudar as moscas, mas tomando cuidado de manter o mesmo mel (para não dizer outra palavra que também começa com m...). Entendeu o espírito da coisa?

Júlio Ferreira
Recife - PE
E-mail: julioferreira.net@gmail.com
Blog: http://www.ex-vermelho.blogspot.com/

CHEFE SABE MUITO - HUMBERTO DE LUNA FREIRE FILHO


Muita gente boa se deu por satisfeita quando o governo demitiu uma leva de bandidos e manteve o chefe no Ministério dos Transportes. Isso é pano de fundo para encobrir a podridão. A justiça de um país sério confiscaria o dinheiro roubado e mandaria em um curto espaço de tempo, todos esses patriotas apodrecerem na cadeia. Mas, no país do futebol, do carnaval, e mais recentemente, paraíso de bandidos, o ladrão sai de cena por um tempo e no máximo em três anos, volta a atacar o cofre publico. O dinheiro roubado, parte é dividida com os asseclas, parte é para pagar bons advogados, de preferência os que já exerceram cargo de ministro da Justiça ou que tenham presidido uma das altas cortes do país nos últimos oito anos, e parte é incorporado ao patrimônio do próprio bandido. O rei Midas da Casa Civil já queimou o cartucho duas vezes e sem dúvidas ainda terá mais uma chance durante o mandato da dona Dilma. Lembrem-se que a república de Macunaíma, em uma trágica cena, o aplaudiu com herói ao deixar o cargo. Outro amigo dos cofres públicos, mensaleiro famoso há quatro anos, hoje é "presidente de honra" do PR, comanda a quadrilha do ministério dos Transportes e ainda "despacha" nas dependência do ministério. Isso para não falar do atual presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) que faz dos cofres da Petrobrás, fundo de reserva de sua empresa. Um muquifo criado para abrigar a roubalheira em conluio com uma Petrobrás aparelhada.

Humberto de Luna Freire Filho - POR E-MAIL

ADENDO: após os acontecimento acima narrados, com denúncias que o "filhinho" do ministro aumentou, em poucos meses, seu patrimônio de R$ 60 mil, para R$ 57 milhões, o ministro pediu demissão, ou foi demitido, não se sabe ao acerto

Antonio Carlos Pereira

ESTÁ TUDO DOMINADO - PERCIVAL PUGINA


O sujeito me parou na rua: "Cadê os caras-pintadas? Cadê os caras-pintadas?" A mão no meu peito parecia disposta a impedir qualquer possibilidade de que a pergunta ou o perguntador fossem driblados. Era preciso responder. Respondi: "Você não está querendo sugerir que os caras-pintadas expressavam espontaneamente uma sentida revolta popular, está?". Ele me olhou surpreso: "Como que não? Como que não?". Em sua indignação ele dizia tudo duas vezes. Acho que uma para si mesmo e outra para mim.



Tentarei resumir o que falei àquele meu interlocutor. Ele não sabia que contingentes expressivos de caras-pintadas saíram às ruas para derrubar o Collor, não só porque ele forneceu motivos, mas, principalmente, porque faziam parte de uma grande corrente aparelhada pelo PT e seus parceiros, ou foram por ela levados a pintar o rosto.



Há muitos anos, desde antes da nossa redemocratização, teve início um processo revolucionário, de ação gradual, mediante infiltração e ocupação de espaços para tomada do poder através da cultura. Não foi e não é um fenômeno apenas brasileiro ou latino-americano. Trata-se de algo que aconteceu e segue acontecendo em todo o Ocidente. O Foro de São Paulo organiza o trabalho na América Latina e no Caribe e o Brasil é um dos casos de sucesso. A revolução é cultural, mas o objetivo é político: a esquerda no poder, para ficar.



A melhor maneira de mostrar o que aconteceu é adotar como ponto de partida não uma sequência cronológica de fatos, mas exibir a obra já feita, o produto acabado, porque não há consequência sem causa. Não há laranja sem que tenha havido laranjeira. Não há corrente sem que elos sejam criados e unidos. Não há hegemonia sem construção de hegemonia.



Vamos, então, às laranjas. Recentemente, houve eleição para o sindicato dos professores do Rio Grande do Sul. Digladiaram-se três chapas, sendo duas encabeçadas por petistas. A eleição se travou no que deveria ser o pior período possível para essas duas chapas. O magistério estadual acabara de ver frustradas as expectativas de que o governo Tarso fosse atender as exigências que seu partido, em coro com as lideranças classistas, fazia aos que o antecederam no Piratini. Calote puro e simples. Não bastante isso, o PT estava, nesses mesmos dias, adicionalmente, elevando a alíquota de contribuição previdenciária de todos os servidores com vencimentos superiores a R$ 3,6 mil. Pois o pacote de maldades em nada afetou o alinhamento ideológico do magistério público. As duas chapas de esquerda perfizeram mais de 90% dos votos! Por quê? Porque para gente bem doutrinada o projeto político subordina tudo e todos.



Com raras, raríssimas exceções, quando contemplamos, em visão de conjunto, a educação nacional, pública ou privada, leiga ou religiosa, em todos os níveis, a situação é a mesma. Através da Educação e seus agentes, já nas salas de aula do ensino fundamental, a hegemonia vai subindo os degraus do sistema, envolvendo professores e alunos. Não é por acaso que a UNE vem sendo comandada pelo PCdoB desde quando o Aldo Rebelo era adolescente. A porta de entrada dos cursos de pós-graduação raramente não inclui uma banca com o poder de filtrar as ideias que ganharão assento nas salas de aula. Daí para o domínio das carreiras de Estado, dos concursos públicos, e até mesmo de suas provas, não vai mais do que um passo de dedo.



Assim, aos poucos, as teses da esquerda foram vestindo toga e chegaram aos tribunais. Primeiro, como vozes discordantes. Mais tarde, nas câmaras, os desembargadores comprometidos com a revolução pela cultura perdiam por 2 a 1. Depois, inverteram o placar. Aos poucos, passaram a controlar os Plenos. Chegaram aos tribunais superiores. Hoje dominam o STF.



Mais laranjas da mesma laranjeira podem ser contempladas na mídia. Os textos que saem das redações, as pautas, os enfoques, as análises servem notavelmente à revolução através da cultura. Direita não presta, conservador é nome feio, as religiões são culpadas por todos os males, católicos são seres desprezíveis. Pouco importa que a posição editorial seja diferente quando a informação, o comentário, o tópico mais lido, a manchete que resume a matéria, o tom de voz do locutor experiente, a imagem selecionada para ir à tela, afirmam num outro viés. Na televisão, a hegemonia da Rede Globo facilitou o projeto, mormente no que se relaciona com o enfraquecimento da instituição familiar, a lassidão dos costumes, a agenda gay, a ridicularização da religião e dos valores ainda apreciados pela sociedade.



Mesmo que escrutine os escaninhos da memória, não é de meu conhecimento instituição mais una do que a Igreja Católica, ao menos nos últimos cinco séculos. Pois esse baluarte foi rompido internamente por dissensos ideológicos promovidos pela mesmíssima revolução através da cultura. Não há o que os dois últimos pontífices tenham afirmado desde 1978 que seja capaz de afastar a CNBB, a maioria dos bispos, padres e seminaristas da herética Teologia da Libertação (TL). Nada nem ninguém prestou melhor serviço à hegemonia da esquerda do que a TL quando substituiu o pobre dos Evangelhos pelo excluído em nome do qual ela se proclama formulada. O pobre dos Evangelhos é objeto da caridade cristã, da virtude do amor ao próximo. O excluído da TL é parte ativa de um projeto revolucionário. Serviço feito.



Eu poderia prosseguir, apontando obviedades como a hegemonia exercida sobre os sindicatos e suas centrais, os movimentos sociais, a Justiça do Trabalho, a maior parte dos conselhos profissionais e suas confederações, as associações de bairro, e por aí afora. Mas não creio que seja mais necessário. Já provei o que queria. Note-se: tudo isso foi feito antes de Lula chegar lá.



Quando ele chegou, completou o serviço promovendo o encontro de todas essas estruturas - que o PT chama de "sociedade civil organizada" (por ele, claro) - com a brutal concentração de poderes que constitucionalmente convergem à pessoa do presidente e ao seu partido: chefia simultânea do Estado, do governo e da administração, das estatais e fundos de pensão; comando das principais fontes de financiamento interno (BB, BNDES, CEF), de 24% do PIB nacional, de poderosas e polpudas contas de publicidade capazes de excitar favoravelmente parcela expressiva da mídia; poderes para legislar por medida provisória, nomear ministros dos tribunais superiores, conceder e renovar concessões de emissoras de rádio e tevê, criar e distribuir cargos e favores.



Se o partido do governo detém tal poder e, simultaneamente, controla tudo que está organizado na sociedade, de onde, raios, poderão surgir os caras-pintadas? Das piedosas senhoras idosas da hora do Ângelus? Do clube de mães da vila Caiu-do-céu? O que podem eventuais organizações não alinhadas, dispersas e desprovidas de qualquer poder, contra quem coloca quatro milhões de militantes numa Parada Gay?



Nesse ponto, meu interlocutor já queria ir embora e era eu que o travava colocando a mão sobre seu peito. "Mas ainda existe a oposição! Ainda existe a oposição!", bradou, por fim, em sua desesperada dose dupla de santa ira. "Oposição? Não há oposição política no mundo capaz, neste momento, de sequer arranhar a teflon da máquina hegemônica petista. A blindagem não é do Palocci, da Erenilda, do Lula ou do filho do Lula. O que está blindado é o projeto revolucionário, o projeto de poder. É de setores do próprio PT que surgem, eventualmente, problemas para o PT. E quando a oposição política mais forte leva o nome de "dissidência", é porque está tudo dominado e o totalitarismo está instalado". Quod erat demonstrandum.

Twitter: @percivalpuggina




______________

* Percival Puggina (66) é titular do blog www.puggina.org, arquiteto, empresário e escritor, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões