quarta-feira, 6 de julho de 2011

O TRABALHO COMO FUGA - PE. PAULO M. RAMALHO



O trabalho como fuga.


Todos nós sabemos que trabalhar “como louco” nem sempre é sinal de virtude. Muitas vezes é uma necessidade, mas muitas vezes não passa de uma fuga: fuga para não enfrentar problemas alheios ao trabalho, fuga para não enfrentar problemas familiares, fuga para não enfrentar problemas pessoais sérios, fuga para não enfrentar o possível vazio da vida.


Falando concretamente do trabalho como fuga do vazio da vida, veja o que diz este autor:


O TRABALHADOR MANÍACO


Outro tipo se evade (desta vida) lançando-se ao trabalho como um louco, quase com fúria. Parece que o estão perseguindo. E é verdade: persegue-o o espectro de sua personalidade vazia. Deposita em seu êxito profissional todas as suas esperanças. Tem pavor de fracassar por inteiro. O triunfo externo é o que valoriza sua raquítica personalidade interior. Por isso foge de si mesmo e se evade no trabalho.


É interessante observar a atitude por vezes ridícula desses seríssimos homens e mulheres de negócios a quem sobram tantos milhões e a quem falta tanta paz. Não podem descansar. Precisam ganhar mais dinheiro. Ter mais brilho. Subir mais alto. Para que? Para poder usar um carro mais luxuoso ou comprar um helicóptero? Pode ser. Mas se buscássemos mais no fundo encontraríamos outra razão: estão absolutizando o seu êxito porque inconscientemente fogem do (vazio das suas vidas).


Esses homens e mulheres, que, se são subalternos, perdem a saúde até que cheguem a ser chefes; e que quando isto acontece não dormem até que possam sentar-se na cadeira de Presidente-Geral; esses homens e mulheres que trabalham até se matar para satisfazer a vaidade do outro cônjuge com uma casa mais vistosa, ou o orgulho de um filho com um automóvel último modelo; esses homens que para se auto-afirmar perdem a serenidade só porque um empregado não se dobra ante seus caprichos ou se encolerizam porque a mulher não lhes prepara a comida que lhes apetece ou se enfadam porque seu nome não saiu no jornal como esperavam; esses homens e mulheres que (...) se apavoram quando vêm num pequeno quisto a suspeita de um câncer, ou, num feriado, começam a sentir uma depressão inexplicável…; esses homens e mulheres todos que parecem auto-suficientes e poderosos, no fundo são extremamente fracos, dependentes, frágeis, vulneráveis e carentes. Para eles essas irritações, esses pavores e depressões são como a vibração de um radar interior que assinala a presença do vazio, e lhes adverte, com um aviso de emergência, que, apesar de seus êxitos, a sua vida não tem sentido (...) que o seu trabalho as suas atividades sociais e diversões não passam de uma fuga…


Para certos indivíduos o ócio, o desemprego, a aposentadoria são verdadeiramente mortais porque arrancam a máscara da sua laboriosa atividade, para revelar o esqueleto da sua raquítica intimidade (...). Por isso, o que se vem chamando de “neurose dominical” e de “neurose de desocupação”, na maioria dos casos melhor se poderia denominar “(neurose da ausência de sentido da vida), neurose da ausência de Deus” (Rafael Llano Cifuentes, Deus e o sentido da vida).


Vejamos, portanto, se nosso trabalho está no lugar!
Vejamos se estamos sabendo trabalhar as horas necessárias, as horas estabelecidas pelo contrato de trabalho!
Vejamos se o nosso trabalho não está sendo uma fuga: uma fuga dos problemas, uma fuga do vazio da vida!
Vejamos se o trabalho não está sendo movido pela ganância, pelo desejo de poder, pela vontade de brilhar, pela vontade de mostrar aos outros que somos “o cara”!
Vejamos, enfim, se estamos sabendo ter o tempo necessário a cada dia para dedicar-nos a realidades mais importantes do que o trabalho: Deus, a família, os filhos, os amigos, etc.


Para colocar o trabalho no lugar certo, nada melhor do que oferecê-lo a Deus (e não ao nosso “ego”) e deixar que Ele nos guie ao longo do dia dizendo o que devemos fazer e o que não devemos fazer!


Uma santa semana a todos!


Pe. Paulo M. Ramalho
(email para comentário: falar.paulo@gmail.com)


Sacerdote ordenado em 1993. Engenheiro Civil formado pela Escola Politécnica da USP, doutor em Filosofia pela Pontificia Università della Santa Croce, capelão do IICS - Instituto Internacional de Ciências Sociais. Atende direção espiritual na Igreja de São Gabriel em São Paulo.


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terça-feira, 5 de julho de 2011

CARREPÃO

O BNDES foi criado com o intuito de fomentar o desenvolvimento dos setores básicos da economia brasileira, principalmente em apoio às pequenas e médias empresas, as maiores geradoras de empregos, desde que lhe foi acrescentado ao nome o “S”, de social, contudo, não é isto que se tem visto nos últimos anos, a maior parte de seus recursos (cerca de 70%) tem sido aplicado nas grandes empresas e até mesmo para financiar obras em outros países, como em Cuba e na Venezuela. Agora, Carrefour e Pão de Açúcar reivindicam bilhões para ajudar seus negócios, em flagrante desvirtuamento de seus fundamentos. Vá uma micro, pequena ou média empresa pedir financiamento para seu desenvolvimento, são tantas as exigências que só lhes resta desistir do pleito. Vamos ver agora, se desta feita, o novo governo tenha hombridade de negar tal empréstimo ao “fã de carteirinha de Lula”!

Antonio Carlos Pereira
publicada no Valor Econômico, com cortes.

CORRUPÇÃO NO BRASIL: SERÁ QUE O MINISTRO ALFREDO NASCIMENTO É A BOLA DA VEZ? - JÚLIO FERREIRA


Desde o começo, muitos foram os que desconfiaram que o verdadeiro significado desse tal de PAC, que os nazipelhas dizem ser "Programa de Aceleração do Crescimento", na verdade poderia significar "Plano para Acelerar da Corrupção". Agora diante de mais esse escândalo surgido no Governo Dilma (mal acaba um, começa outro...), com a descoberta de um sórdido esquema de arrecadação de propinas montado no Ministério dos Transportes, fica mais do que claro que essa profusão de obras "inventadas", na maioria das vezes com programações "feitas nas coxas", podem estar servindo para estabelecer "alibabescos" esquemas de arrecadações de propinas, destinadas não só a enriquecer poderosos, e aqueles que vivem à sua volta, como também, e principalmente, para formar vultosos "caixas", destinados a financiar propagandas eleitorais, como forma de, através do que eles cinicamente chamam de eleições Democráticas, garantir a perpetuação no "puder". Eu só quero ver se com o ministro Alfredo Nascimento, no Ministério dos Transportes, vai acontecer o que acontecia com Lulla, no Palácio do Planalto? Será que o Alfredinho, mesmo após ter seus principais assessores "pegos com a boca na botija", vai conseguir fazer com Dilma o mesmo que Lulla fez com os resilientes brasileiros, quando escapou pela tangente, com a conversa mole de que não sabia de nada, e que havia sido traído pelos aloprados nos quais confiava. Eu só espero que dona Dilma não seja tão boba quanto os brasileiros foram naquela ocasião, e não se deixe enrolar por mais um amontoado de mentiras.

Júlio Ferreira
Recife - PE
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segunda-feira, 4 de julho de 2011

ELES ACHARAM QUE ESTAVA TUDO DOMINADO - AUGUSTO NUNES

Augusto Nunes - 03/07/2011 às 19:43 \ Direto ao Ponto
Eles acharam que estava tudo dominado

“Está tudo dominado”, costumam lastimar-se muitos comentaristas da coluna. É compreensível a sensação de impotência provocada pela impunidade dos corruptos, pela cumplicidade ativa ou passiva dos três Poderes, pela voracidade da aliança governista, pela pilhagem sistemática dos cofres públicos, pela mansidão bovina da maioria do eleitorado ─ enfim, pela paisagem política desoladora. Mas não está tudo dominado.

A frase que dá por consumado o triunfo dos fora-da-lei será apenas um verso derrotista enquanto existirem imprensa livre e milhões de brasileiros capazes de indignar-se com denúncias consistentes. Se tudo estivesse dominado, Antonio Palocci, por exemplo, ainda seria chefe da Casa Civil. O governo fez o que pôde para proteger o reincidente incurável. Acabou por render-se aos homens honestos inconformados com a nova safra de patifarias.

Se estivesse consumado o triunfo dos vilões, a quadrilha que age há meses no Ministério dos Transportes não começaria a ser desbaratada horas depois que seus integrantes foram identificados por uma reportagem de VEJA. Nomeados pelo ministro Alfredo Nascimento, presidente do PR, e sob o comando do deputado Waldemar Costa Neto, um dos mais gulosos protagonistas do escândalo do mensalão, os quadrilheiros instalados na cúpula do ministério abasteceram o caixa do partido e as próprias contas bancárias com bilhões de reais desviados dos cofres públicos.

Certamente por achar que está tudo dominado, o bando abusou dos métodos de sempre ─ obras sem licitação, contratos superfaturados, barganhas com empreiteiros e empresas fantasmas, fora o resto. Na manhã deste sábado, quatro chefões souberam que estavam desempregados numa conversa por telefone com Alfredo Nascimento, o ex-ministro de Lula que recuperou a vaga no primeiro escalão por ter naufragado na disputa do governo do Amazonas. Veterano frequentador do noticiário político-policial, ele continua a fazer de conta que não sabia de nada. A pose de inocente não combina com o prontuário. E colide com depoimentos que amparam a denúncia de VEJA.

Há dias, Nascimento alegou “compromissos inadiáveis” para ausentar-se da reunião em que Dilma quis saber dos figurões do ministério por que todas as cifras que administram estavam “insufladas”. (Insuflar: é isso o que faz, na novilíngua do Planalto, quem acumula um himalaia de bandalheiras. Mas isso é tema para outro post). A presidente foi dispensada por VEJA de convocar outro encontro para cobrar as respostas: a edição desta semana desvendou o claro enigma.

Com argumentos de sobra para livrar-se dos “insufladores”, Dilma tem o dever de prosseguir a faxina com a imediata demissão do ministro. Ainda convalescendo da afronta estrelada por Palocci, o país não merece ficar outros 20 dias esperando que Alfredo Nascimento se anime a gaguejar algum álibi, ou tente explicar o inexplicável.

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/eles-acharam-que-esta-tudo-dominado/

domingo, 3 de julho de 2011

SENSAÇÃO DE IMPUNIDADE CRESCERÁ, DIZ MAGISTRADO - WILLIAM CARDOSO E OUTROS

Sensação de impunidade crescerá, diz magistrado
Principais críticas vêm do Ministério Público; para o governo, pretende-se abandonar a tese de que só se pune ao prender

William Cardoso - O Estado de S.Paulo

Especialistas em Direito Criminal apontam que, ao colocar nas ruas milhares de suspeitos detidos provisoriamente e até impedir a prisão preventiva de ladrões e autores de crimes do colarinho branco, a Lei 12.403 pode provocar aumento da sensação de impunidade na população.


Marcos D'Paula/AE - 25/8/2008Mutirão do CNJ no Rio. Provisórios seriam 44% dos presos
Para o desembargador federal Fausto De Sanctis, um dos principais críticos da nova lei, a proibição da prisão preventiva para quem comete delitos com pena igual ou inferior a 4 anos é negativa. "Além de ofensa às Convenções da ONU contra a Corrupção ou o Crime Organizado, que consideram graves os delitos já na hipótese de 1 a 4 anos, retirou-se do juiz a tarefa de verificar sua necessidade, o que comprometerá a busca da verdade."

De Sanctis diz que a nova lei favorece a impunidade. "Imagine que crimes graves não permitirão mais a prisão preventiva, mesmo se houver ameaças a testemunhas. A busca da verdade real não foi uma preocupação do legislador que, curiosamente, manteve a prisão especial, violando o princípio da igualdade."

A opinião de De Sanctis é compartilhada por integrantes do Ministério Público. Segundo o desembargador, as justificativas oficiais para a adoção da nova lei incluem a necessidade de reduzir o número de presos provisórios encarcerados no País, estimado em 44% do total de detentos. Para ele, essa não seria a forma mais adequada.

Ressalvas. O supervisor do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (DMF), vinculado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Walter Nunes, atribui as críticas ao entendimento de que uma pessoa só é punida quando presa. "Prisão preventiva não é pressuposto de condenação. Essas pessoas ainda não foram condenadas", enfatiza.

Mas entre advogados há receio de que essa suposta impunidade possa causar efeito contrário: muitas pessoas que hoje, por essa legislação pouco flexível, ficam livres poderão agora ter direitos restringidos pela nova lei. Mesmo que não fiquem presas, poderão ser monitoradas ou proibidas de frequentar determinados lugares. "Receio que possa haver esse movimento", diz o advogado Pierpaolo Bottini.

O criminalista Antônio Claudio Mariz de Oliveira defende a nova lei. "Creio que ainda existam pessoas que acham que a única resposta para o crime é a prisão, quando na verdade há medidas menos danosas", diz. O especialista em Direito Criminal diz também que o Poder Judiciário terá mais recursos à mão para aplicar contra um suspeito, não ficando restrito apenas à prisão ou soltura./ COLABORARAM MARCELO GODOY E FELIPE RECONDO


sábado, 2 de julho de 2011

DO JEITO QUE AS COISAS VÃO, VÃO ACABAR INVENTANDO PUNIÇÕES PARA OS HETEROS - JÚLIO FERREIRA


Do jeito que a coisa vai, no bojo dessa intensa propaganda que vem sendo feita pelos meios de comunicação de massa, exaltando as "maravilhas" de ser gay, em pouco tempo, mesmo os heterossexuais vão ser constrangidos a mentir quanto a sua orientação sexual, admitindo, ou mesmo "deixando no ar" a possibilidade de que seja gay. Para demonstrar a pertinência do raciocínio, basta recorrer ao antigo tabu da "virgindade feminina". Antes, a quase totalidade das jovens solteiras, independente da idade, mesmo que não fossem virgens, mentiam descaradamente, defendendo "com unhas e dentes" a sua "donzelice". Hoje, depois da "banalização do ato sexual", principalmente nas novelas de TV, a maioria das jovens adolescentes, mesmo que "ainda" virgem, tenderá a, durante seus contatos sociais, negar, ou pelo menos deixar dúvidas, quando a sua vida sexual, tendo em vista que, a se declarar virgem, correrá sérios riscos de ser acintosamente discriminada pela "galera". Estou errado? A coisa começa exatamente como está ocorrendo em relação aos gays. Um determinado comportamento não convencional passa a ser excepcionalmente "valorizado" pela mídia, gerando uma sequencial mudança de atitude da sociedade em relação ao tema, que passa a fazer um "trânsito" que vai da simples aceitação, passa pelo acolhimento, ganha status de normalidade até que, com a crescente difusão da a mídia, "entra na moda" e ganha contornos de "obrigatoriedade", na medida em que todo aquele que não declarar adesão plena, passará a ser, no mínimo, rotulado de retrógrado.

Júlio Ferreira
Recife - PE
E-mail: julioferreira.net@gmail.com
Blog: http://www.ex-vermelho.blogspot.com/



terça-feira, 28 de junho de 2011

BANDIDAGEM AGRÁRIA - XICO GRAZIANO

Xico Graziano - O Estado de S.Paulo

Conheci o Zé Rainha em 1995. Parecia um líder verdadeiro, expoente da infantaria do MST. Tempos idealistas. Depois começou sua degradação moral. Agora, preso por corrupção, revela o lado obscuro da reforma agrária brasileira.


Alto, magro, parecido com Antônio Conselheiro, messiânico que comandou a resistência de Canudos, Rainha procurou-me no Incra para ajudá-lo a implantar um polo agroindustrial nas terras do Pontal do Paranapanema paulista. Ousado, o projeto fazia sentido. Financiamento de R$ 3,8 milhões atenderia 1.600 famílias assentadas na Gleba XV, em Teodoro Sampaio (SP).

Assim nasceu a Cooperativa de Comercialização e Prestação de Serviços (Cocamp). Além das instalações físicas, novos recursos permitiram ainda a compra de 42 tratores e vários caminhões, frota com a qual o líder barbudo desfilou pelas ruas da cidade cantando sua glória. Depois vieram o laticínio, as balanças e dois enormes silos de cereais. Tudo somado, R$ 8,5 milhões irrigaram essa boa ideia da reforma agrária cooperativada.

Passou um tempo. Em 1997, novamente recebi Zé Rainha em meu gabinete, agora na Secretaria de Agricultura paulista. Voluptuoso, demandava mais recursos, do governo do Estado, para sua obra. Propunha arrematar uma fecularia de mandioca perto de Presidente Prudente. Nesse momento comecei a desconfiar do seu caráter.

Primeiro, porque sabia que a cooperativa mal engatinhava. Acusações sobre sumidouro de recursos surgiam entre os assentados. Colocar mais dinheiro lá seria temerário. Segundo, sua conversa beirava uma negociação esdrúxula: se o financiamento fosse concedido, ele daria uma maneirada nas invasões de terras. Senão iria radicalizar o conflito contra os proprietários rurais. Chantagem pura.

Quem já negociou conflito agrário sabe que assim opera a pragmática política do MST. A questão, todavia, não era apenas política, mas envolvia dinheiro público. Resumo da história: jamais vingou aquele projeto agroindustrial. Os tratores desapareceram, as máquinas industriais nunca funcionaram. A anunciada redenção da reforma agrária virou um elefante branco. Sumiu a dinheirama.

Fotos e relatos obtidos dos próprios assentados, que desgraçadamente se tornaram solidários nas dívidas contraídas pelo delirante líder, foram publicadas em meu livro O Carma da Terra no Brasil (2004). Nele mostrei que a gula do Zé Rainha não era uma exceção. Expus também o projeto da Fazenda Rio Branco, em Parauapebas (PA), outro vergonhoso fracasso. Triste mistura de incompetência e malandragem na reforma agrária.

A dita esquerda recebeu meus escritos com desdém semelhante ao externado por Gilberto Carvalho, ministro com assento no Palácio do Planalto. Ele lamentou a prisão do Zé Rainha, dizendo que ela "tumultua o processo da reforma agrária" e atrapalha o relacionamento do governo com os movimentos sociais. Misturou alhos com bugalhos.

O descaminho da reforma agrária brasileira começou no início da década de 1990, quando o MST optou por invadir propriedades rurais. Foices e facões forçavam a desapropriação de fazendas pelo Incra. A novata entidade buscava com sua beligerância assumir o protagonismo da luta camponesa no País, até então entregue à velha Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Com tradição comunista, esta se acomodara nos meandros do poder.

Apoiado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pelo PT, o MST avançou ferozmente na luta pela terra. Militarmente organizados, fartos em recursos, os invasores ganharam a mídia e encantaram a opinião pública. O inegável sucesso de sua estratégia política, porém, gerou o imponderável: as quadrilhas rurais.

Os neorrevolucionários abriram brechas para que, em vários cantos do País, bandoleiros disfarçados de sem-terra partissem para saquear e depredar fazendas. Roubo de gado, tratores e arames de cerca, fogo, moradores feitos reféns, barbaridades escondidas sob o mantra da justiça social. Verdadeira bandidagem.

O MST, de início, aproveitou-se dessa brutalidade para expandir os seus domínios, especialmente no Pará. Imiscuiu-se com essa criminalidade alimentada pela miséria e estimulada pelo caos fundiário. Mordeu, porém, do próprio veneno: gerou internamente a beligerância.

Nesse caldo de cultura que alimenta a violência rural, Zé Rainha projetou-se.

O passado condena. Fugido de Pedro Canário (ES), onde enfrentava a Justiça por antigo crime de assassinato, o carismático Zé Rainha foi útil ao MST no Pontal do Paranapanema. Brilhou na televisão. Até romper com o comando central do movimento, partindo para sua carreira solo. Prostituiu-se, acabou proscrito.

Os infames vos enganaram, bradou Demóstenes, recriminando os combalidos atenienses quando estes, equivocadamente, socorreram Plutarco nas guerras da antiga Grécia. Milhares de pessoas esperançosas, no Pontal do Paranapanema como alhures, seguiram o discurso fácil e fantasioso da terra prometida, como se entrassem na fila do passaporte para a felicidade.

Zé Rainha, além de corrupto, comandou a perniciosa fábrica de sem-terra montada País afora pelo MST e seus congêneres. Nela boias-frias e desempregados urbanos se misturam com ambulantes, domésticas, tarefeiros, prostitutas, pessoas de bem e oportunistas, todos interessados no lote dadivoso da reforma agrária. Basta montar um barraco na beira da estrada e recolher um pedágio mensal, espécie de taxa da ilusão. Até trombar com a dura realidade.

As utopias movem o mundo. As farsas, porém, desgraçam a História. Executar um processo de reforma agrária e criar novos agricultores exige planejamento, capacitação, idealismo. Nenhum desses elementos mora na cadeia onde dorme Zé Rainha.


AGRÔNOMO, FOI SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO.
E-MAIL: XICOGRAZIANO@TERRA.COM.BR